Viver os quatro fins da Missa

Como lembra o clássico Catecismo Romano (IV, nn. 78-79), os quatro fins do Sacrifício da Missa, que coincidem com os quatro grandes sentimentos com que Jesus se ofereceu a Deus Pai na Cruz, são: a adoração (ou o louvor), a ação de graças, a reparação pelos pecados e a súplica ou oração de petição.

Os textos da Missa, quando bem vivida, despertam intensamente na alma essas quatro atitudes:

Adoração e louvor. Pensemos, por exemplo, quantas coisas podem sugerir orações litúrgicas como estas: <>, <>, <>, e tantas outras.

Mas não esqueçamos que, além dos textos, há também os gestos litúrgicos de adoração, que também movem a alma a orar.

A Instrução Geral do Missal Romano (n. 42), que contém as normas oficiais da Igreja para a celebração da Missa, indica, por exemplo, que os fiéis se <>, e que, onde for costume, é louvável <>. Gestos de adoração, que arrastam a alma com eles!

Como lhe dizia antes, é fácil perceber que essas orações e gestos de reverência podem despertar, interiormente, expressões muito ricas de adoração e louvor. Por exemplo, exclamar interiormente “Meu Senhor e meu Deus!”, quando o celebrante eleva e Hóstia e o Cálice, e depois faz genuflexão; ou “Adoro-te com devoção, Deus escondido”, quando ficamos de joelhos, ou quando fazemos a genuflexão que a Liturgia prescreve ao passarmos diante do sacrário, ou diante do altar após a Consagração da Missa, etc.

São Josemaria confidenciou certa vez que após a Consagração costumava dizer por dentro a Jesus: <>.

Ação de graças. Basta que você pense no que sugere textos litúrgicos como os seguintes: <>, <>, e outros…

Como é possível que, diante da doação total de Cristo por nós na Missa, não lhe agradeçamos de muitas maneiras? Pode bastar, sem palavras – só com o coração -, um simples “Obrigado, Senhor; por tudo”; ou um “Obrigado por isso e aquilo”; ou deixarmos que a alma exclame interiormente: “Como és bom, Senhor, como és bom!”. E não há dúvida de que o maior momento de ação de graças é a conversa que mantemos com Jesus após a Comunhão (disso trataremos mais amplamente em outra reflexão).

Mas o coração pode ir além da gratidão. Convençamo-nos de que, muitas vezes, a melhor ação de graças, a melhor retribuição, será o oferecimento generoso – em união com a oblação de Cristo – do nosso dia, da nossa semana, dos nossos trabalhos e deveres cotidianos; e também a entrega a Deus das nossas dores e alegrias, do nosso apostolado… Quantas palavras íntimas não podem “entrar” aí, quantas “oferendas” não podemos colocar, com a intenção, na patena de casa Missa!

Reparação pelos pecados próprios e alheios, por tantas ofensas que Deus recebe. A Liturgia também nos move à contribuição e à reparação: <>, <>, <>,<<…todos os que circundam este altar… elevam a vós as suas preces para alcançar o perdão de suas faltas…>>, enfim, nós vos pedimos, tende piedade de todos nós e dai-nos participar da vida eterna…>>, etc.

Como é bom rezar essas orações, e acrescentar-lhes nossos pedidos interiores de perdão, dizendo por dentro, por exemplo, aquela “oração do coração” de que fala o Catecismo da Igreja Católica (nn. 2616 e 2667): <>, tão característica da espiritualidade russo-bizantina; ou repetindo o belo ato de arrependimento e desagravo de São Pedro após a ressurreição de Cristo: Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo! (Jo 21,17).

Súplicas, petições. Toda missa é, também, uma constante súplica pelos que participam conosco da mesma Missa – <> -, por toda a Igreja, a começar pelo Papa e pelo Bispo, pelos vivos e os defuntos: <>. E, em concreto, por tantas intenções que visam às necessidades mais prementes do mundo e da Igreja: a paz, a harmonia dos povos, a justiça na vida social e econômica, a defesa dos valores da família, a fidelidade dos governos à Lei de Deus, as vocações… (intenções lembradas especialmente na “Oração dos fiéis”), bem como as múltiplas intenções estritamente pessoais ou familiares, que vamos colocando mentalmente na patena, para que Cristo as assuma ao descer aos vasos sagrados.

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A missa como sacrifício

Não é muita coisa?

Se pretendêssemos fazer em cada Missa “tudo” o que acabo de sugerir, sim, seria muita coisa! Seria demais! Mas não se trata disso. Eu não lhe quis dar uma “cartilha única e obrigatória”. Deus me livre! Quis apenas rasga um pouco o horizonte de possibilidades de fazer da Missa uma oração continuada. Fica na sua mão escolher algumas.

Na prática, uns dias você focalizará na Missa sobretudo as ações de graças; outros dias se concentrará na adoração – como é grata a Deus a adoração! -; em outras ocasiões, fixará especialmente o coração em algumas intenções que leva ao altar; em outras, suplicará sobretudo o perdão de Deus, como o filho pródigo, ou desejará desagravar a Jesus pelas inúmeras ofensas e esquecimentos com que o ferem todos os dias…

Cabe, portanto, a você a iniciativa do que vai fazer na missa. Será bom que o concretize quando se prepara para o Senhor Sacrifício. Vai ver como, pouco a pouco, irá colocando mais “vida” e amor na Missa, e conseguirá, com a ajuda da graça, que cada Missa seja um encontro pessoal com Cristo, e, através dele e em união com o Espírito Santo, com Deus Pai, e com todos os irmãos.

O Papa Bento XVI diz que, de todas as orações da Missa, talvez a que mais goste seja a que diz o sacerdote antes de comungar: <>. Jamais separar-se de vós…

A Missa bem vivida torna-se a “ignição” da alma, que nos move a cumprir com carinho a vontade de Deus – <> – nos detalhes cotidianos do trabalho, da vida familiar, da vida social…, enfim, em todos os momentos e circunstâncias da vida.

Retirado do Livro: “Para Estar com Deus”. Francisco Faus. Ed. Cléofas e Cultor de Livros.